Os Dançarinos

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Amor Nos Faz Crianças


o balanço no parque vazio
o vento muda de rota
os meninos dormem e crescem
você pensa na sua derrota
e quem antes senhor do destino
vê seu dedo em carne viva
a marca das alianças

a vontade não paga entrada
a razão tem suas razões
o prazer é um prêmio fácil
presas fáceis os corações
mas há algo que lhe diz
que você deve seguir em frente
não, não é a esperança...

o amor nos faz crianças

o silêncio faz sua algazarra
você não foi convidado
mas todos uma hora ou outra
temos que lidar com o passado
envolto em macia seda
o tempo comete os seus crimes
e você paga a fiança

bebendo da solidão cristalina
com a inocência perdida
tudo que entorpece
também queima na ferida
nada igual, tal como antes
caindo da torre infinita
você lança suas duas tranças

o amor nos faz crianças


***
você pode conferir a versão demo dessa música
edição, programações, instrumentos, voz, letra e música:  Gian Fabra

o video é uma homenagem aos filmes:
The Gold Rush (Chaplin, 1925); Frankstein (Whale, 1931); Los Olvidados (Buñuel, 1950); Le Notti di Cabiria (Fellini, 1957); La Dolce Vita (Fellini, 1960); 8 1/2 (Fellini, 1963); Amacord (Fellini, 1973); E La Nave Va (Fellini, 1983); Nuovo Cinema Paradiso (Tornatore, 1988)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Admirável Mundo Novo


Ninguém me contou, aconteceu comigo!

Noutro dia simplesmente recebi um email com um texto meu. Um texto em forma de diálogo que foi escrito e publicado neste blog que você lê no dia 26/02/2010 com o título de "Semântica".

Seria uma situação engraçada se, no email em questão, a autoria do texto não estivesse atribuída ao Caio Fernando Abreu.

Bem, devo confessar que primeiro senti uma certa pontada de orgulho/vaidade ao me ver confundido/comparado ao grande Caio que tanto admiro, e resolvi pesquisar no Grande Oráculo. Digitei  o título do email (Só sei que nós nos amamos muito de Caio Fernando Abreu) e aí foi um espanto. A página mostrava 35.900 resultados. O orgulho deu lugar à preocupação. Cliquei no primeiro resultado e lá estava meu texto com meu nome no final. Ufa... Cliquei no segundo e lá estava o meu texto atribuído ao C.F.A.. Pensei em deixar um comentário reivindicando a autoria daquele texto, mas logo percebi que aquele 'post' era um reblogue, que já tinha sido reblogado e reblogado por centenas de outros blogues. Cliquei em mais alguns resultados e percebi o mesmo. Não havia o que fazer. A ficha finalmente caiu e senti uma grande tristeza.

Sei que a questão autoral é cada vez mais vilipendiada neste mundo digital. O fato de eu não receber o devido dinheiro pelas minhas criações, tanto literárias quanto musicais, já passa há tempos por um processo de absorção e conformidade forçada. Mas o mínimo que minha ingenuidade proxyana espera(va) é(ra) receber pelo menos o crédito por aquilo que eu criei. E quando nem sua expectativa mais baixa consegue ser alcançada, fica um vazio.

Este episódio só veio corroborar uma ideia que, cada vez mais, amadurece em mim: a iminente e inevitável morte do autor.

E olha que a maioria dos meus amigos me considera um otimista.

O que eu vejo é que a depreciação da questão autoral já atinge os criadores, e cada vez vai se criar menos. Já podemos vislumbrar a pseudoarte do copiar e colar ganhando espaço no mundo dos bits. E a tendência é que essa ferramenta venha a dominar completamente o processo 'criativo'. E assim será, até chegar o dia em que os humanos não mais se preocuparão com esta tarefa menor, relegando-a às máquinas. Um pensamento assombroso, mesmo para um pessimista.

Só me resta dizer que tenho  a esperança de não estar mais neste planeta quando isso acontecer. E quem sabe um dia eu volte reencarnado como um 'John, o selvagem', admirando fragmentos perdidos de textos de Shakespeare, à margem, como sempre fui, deste admirável mundo novo.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Manhãs de Domingo


quando abro os meus olhos e vejo os seus olhos sorrindo
eles vêm vindo
lindos como planetas distantes que antes dormindo
pairavam infinitos

calma que não demora agora o clarividente
dia iminente
quente, e quem te diria que um dia haveria a gente
assim... de repente

o que eu sinto nessas manhãs de domingo
eu prefiro dizer só pra você
baixinho.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Cafe Paris


Já é tarde pra lembrar
que o tempo não volta atrás
A estrela que agora brilha
talvez nem exista mais

Aos sonhos cabe juntar
tudo que foi esquecido
Ao largo dessa avenida
o que poderia ter sido

Seu olhar já não traz o fogo
que iluminava os dias
e ficam as cinzas nos cantos
de intermináveis noites frias

Ainda que haja vontade
vontades são impacientes
Nós fomos pelo mesmo caminho
pra lugares diferentes

Au revoir mon amour

E ficamos a sós lado a lado
cada um com a sua culpa
que o amor tem o seu fardo
e sua dose de cicuta

Não se percebe a verdade
até que se deixa o cortejo
Diziam que o rei estava nu
mas ele vestia um desejo

Au revoir mon amour

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Guerra dos Sexos


"cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".

O verso acima é parte da música 'Dom de Iludir', de Caetano Veloso, mas na verdade foi 'emprestado' do livro 'Dom Quixote de La Mancha', de Miguel de Cervantes. Caetano pagou pelos direitos autorais? Citou a fonte? Claro que não. Independente de domínios, toda criação é inerente ao compartilhamento. Nada é criado no vácuo. Reza a lenda que Paul McCartney teria dito, parodiando a máxima de Lavoisier: Se na natureza nada se perde, tudo se transforma; na música nada se cria, tudo se copia. Compartilho.

Tenho participado de muitas conversas sobre leis de direitos autorais. Papo chato para muitos, eu sei, mas como autor, eu preciso me interar e me posicionar sobre o assunto. A questão é complexa. Temos uma lei retrógrada que não condiz, apesar de pretensiosamente tentar prever o futuro, com a atual realidade da música digital. Mas como mudar uma lei que regulamenta uma indústria de bilhões de dólares. A paz no Oriente Médio me parece mais fácil.

Enfim, este não era o meu assunto aqui. Tudo isso só me veio à cabeça por conta do verso que abriu o texto, e acabei me excedendo, e me perdendo. Na verdade, eu queria escrever sobre essa eterna guerra entre os sexos. Homens X Mulheres.

Todo papo de bar que se preze passa pelo assunto, e já ouvi tantas bobagens a respeito, que hoje afirmo: É impossível para os homens entender as mulheres e vice-versa. De qualquer forma não levo essa guerra a sério. No fim das contas o que vale é que, nestas discussões acaloradas, sempre aparecem alguns argumentos/tiradas que arrancam risadas. Como certa vez quando uma amiga falou: "pelo menos as mulheres não têm problemas sexuais por causa da idade", e um amigo arrematou de primeira: "pode até ser, mas têm problemas para arranjar parceiros sexuais por causa da idade". Até a menina riu... É. Saber rir de nossas diferenças é o melhor exercício de tolerância.

Não leve a mal. Se me fosse possível condensar, num único pensamento, tudo o que eu vivi e observei nessa relação faiscante entre os sexos, eu diria:

As mulheres sempre esperam que os homens mudem, mas eles não mudam.
Os homens sempre esperam que as mulheres não mudem, mas elas mudam.

A frase acima seria de minha autoria? Bem, eu me apropriei de ideias alheias, remixei, reorganizei, enfim... o jogo sempre termina empatado. Grazie a Dio!

...e cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Desesperança

debaixo do chapéu, cabelos brancos
feito os pombos que ciscam o chão
o pensamento parte em revoada

o velho cruza a rua de mãos dadas
com a sua solidão
olhos fixos que não dizem nada

pra onde vai o tempo?
pra onde ele leva o que se perdeu?

uma mulher ajeita o vestido
sujo como o pano que esfrega o chão
ela carrega no rosto um sorriso gasto
que cabe no tubo da pasta de hortelã

ela evita o coração
mas o espelho não evita o amanhã

o grito do tempo ecoa
ele diz esperança...

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Monstros


Existe um monstro dentro em mim. Sim, existe um em cada de nós. O meu habita uma prisão suja e escura, de cujas paredes brota um musgo viscoso. Uma prisão solitária onde volta e meia o visito. Ele chora ao me avistar. Eu, apiedado, o alimento com o que há de melhor entre meus medos e sustos.

Sei que aos confinados urge o desejo de liberdade. E de mim, me escapou várias vezes o monstro. Mas aprendi suas artimanhas. E atirei para longe, num lugar que não lembro onde, a chave de sua prisão. Agora não há mais saída.

Confesso que me compadece vê-lo jazendo naquele local insalubre. Ele diz que sou um carcereiro cruel. Argumenta que até os condenados mais bárbaros têm direito a luz do sol. Mas não lhe dou ouvidos. São muito espertos estes monstros. Não me acho cruel, apenas temo o que não controlo.

Talvez ele nem imagine, mas sempre me lembrarei de uma passagem em especial, da última vez que ele me escapou. Enquanto eu gritava que ele nunca mais fugiria, que ele nunca mais faria mal a ninguém, arrastadando-o à força prisão adentro, ele me pedia para não tratá-lo daquela forma. Foi quando eu disse "Cala-te monstro". Naquele momento seu olhos aterrorizantes se tornaram dulcíssimos, e ele grunhiu: "Não me chame assim, eu tenho nome". Ignorei e repeti "Cala-te monstro", mas ele se aproximou e sussurou no meu ouvido: "Não me chame assim, eu me chamo Inocência".

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Pra Cada Momento

Ando afastado daqui. Aliás, ando afastado de muita coisa.

Nada sério, mas ultimamente as notas musicais tem me requisitado muito mais do que as palavras. E tenho retribuído de bom grado.

Recebi vários emails questionando minha ausência. Agradeço a todos pelo carinho. Sim, sinto falta daqui, sinto falta de escrever e, principalmente, sinto falta de ler os que me lêem. Graças a essa ferramenta conheci muitos blogs legais de pessoas realmente talentosas na dança das palavras.

Daqui a pouco os dedos vão coçar de novo e voltarei a escrever pro Blog, sem pressão. Sem angústia. Enquanto esse dia não chega, quero compartilhar minha nova criação digital, trata-se de um podcast musical. Pra cada momento, uma trilha sonora.
Visite, comente, divulgue e divirta-se
G.F

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Semântica

...
- Só sei que nós nos amamos muito...
- Porque você está usando o verbo no presente? Você ainda me ama?
- Não, eu falei no passado!
- Curioso né? É a mesma conjugação.
- Que língua doida! Quer dizer que NÓS estamos condenados a amar para sempre?
- E não é o que acontece? Digo, nosso amor nunca acaba, o que acaba são as relações...
- Pensar assim me assusta.
- Porque? Você acha isso ruim?
- É que nessas coisas de amor eu sempre dôo demais...
- Você usou o verbo 'doer' ou 'doar'?
- [Pausa] Pois é, também dá no mesmo...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Ilusionista

Ei! Você... Acorde!

Agora se ajeite na cadeira. Fique à vontade. Estique seu corpo... ou se contraia... O importante é que você encontre uma posição confortável. Imagine-se num lugar bem tranquilo. Acolhedor. Meia-luz. Silêncio. A temperatura agradável. Vamos! Você consegue!

Pronto! Não se assuste com esse pequeno barulho ao seu lado. Sou eu me ajeitando. Sim, também estou aqui. Eu vim porque preciso que você me escute. Eu vim para me confessar. Preparada?

Não pense que não reparei neste enorme peso que você carrega sobre seus ombros. Como se fosse um imenso saco de desejos conflitantes. Um piano de dúvidas. Ele sempre esteve aí. E o meu primeiro pecado foi não tirar esse peso de você. Eu sabia que com isso abriria uma brecha para que ladrões e aventureiros o fizessem. Sabia também que você, aliviada, permitiria. Sim, eu sabia. Não me queira mal por ter deixado isso acontecer. Se agi assim foi porque acreditei que ele estava aí pro seu bem. Que só carregando esse peso você ficaria forte. Foi porque acredito que não importa quantos pesos outras pessoas tirem de você, sempre surgirão novos fardos ainda maiores. Que só quando tiver força para suportá-los, perceberá que é a única pessoa que pode lidar com eles. Esse dia chegará, e então talvez me perdoe. Mesmo que tardiamente.

Esse perdão não significa muito. Essa negligência não foi meu único pecado.

O meu segundo pecado também foi a negligência. Mas dessa vez comigo mesmo. De tanto querer o bem do outro deixei de querer meu próprio bem. Nem percebi que, agindo assim, eu não conseguia mais ser como você queria que eu fosse. Parece complicado, contraditório.... De tanto querer ajudar, tornei-me incapaz de fazê-lo. Deve ser por isso que, durante as instruções de segurança dos vôos, as aeromoças avisam que se a pessoa ao seu lado precisar de ajuda para colocar a máscara de oxigênio, primeiro você deve colocar a sua para só depois ajudá-la. Ora! Quem já passou por esta situação numa real emergência para saber como reagiria? Enfim, espero que um dia você tenha a felicidade de ser mãe e perceba que seu próprio bem estar não importará tanto, porque agora existe alguém que precisa mais de você do que você mesma. Nesse dia você entenderá... Talvez.

Eu podia ficar aqui desfilando meus pecados. A autocomiseração, a presunção, a teimosia... Sim, eles são muitos e não quero lhe entediar. Vou parar porque percebi que não busco remissão. Porque sei que tenho um pecado maior para o qual não existe perdão.

Eu sempre acreditei que a minha vida era um sonho, e já não consigo acordar. Aliás, acordar seria a minha morte. Agora estou preso aqui. Eternamente. Condenado a sonhar e condenando outros a viverem meu sonho. Por isso o ‘acorde’ do início. Dissonante. Menor com sétima maior. Acorde você que para mim já não há saída. Meu maior pecado sempre foi a ilusão.

É. Eu ainda acredito no amor.
Sinceramente,
G.F