Os Dançarinos

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Musa




ela te carrega para casa onde mora
um apartamento com a vista da baía
a noite vai passando e ela vem trazendo vinho
a garota é decidida e é isso que te encanta
num quadro de cortiça você vê suas poesias
entre fotos e colagens um cartão com algo escrito
você força os seus olhos e lê a palavra: musa

você quer ficar com ela todas noites que ainda restam
você confia nela mesmo sem ter um motivo
percebe que ela agora é a dona do seu mundo
você sempre abandona tudo aquilo que não pode controlar

Eva anda inquieta no jardim do paraíso
o seu corpo perfeito tem o gosto da virtude
a serpente agoniza rodeada de curiosos
Eva sabe que o futuro é uma imagem desfocada
Adão olha pra ela como o mar bate nas pedras
no auge da viagem de repente ele dispara
que a felicidade só existe quando é compartilhada

Eva quer ficar com ele todas noites que ainda restam
sabe que ele lhe daria um pedaço do seu corpo
a maçã do paraíso tem um gosto conhecido
Eva sempre abandona tudo aquilo que não pode controlar

enquanto ela se veste você fica observando
cada peça que coloca você gosta do estilo
os dois ficam em silêncio o que soa confortável
e quando você está prestes a dizer que vai embora
ela acende um cigarro e você entende tudo
que você sempre foi dela desde quando existe o tempo
o silêncio é o contrato entre as almas que conseguem se entender

ela quer ficar contigo todas noites que ainda restam
e você confia nela mesmo sem ter um motivo
mas percebe ela distante mesmo estando ao seu lado
ela sempre abandona tudo aquilo que não pode controlar

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Farewell




não sou a promessa de uma vida a dois

ora! não acredito em futuro

o futuro foge do agora
e não se existe nesse estado
quando passar o presente
o tempo será passado

ah! e se fui feito de lama
você é só minha costela

não sou o feliz passarinho
nunca soube fazer ninho

mas aprendi a voar ligeiro

viu? você nem me viu
quando pousei na janela

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Tempo é Dinheiro


Soft Watch At Moment of First Explosion, c.1954 - Salvador Dali


Tempo é dinheiro! Já me provaram com argumentos sólidos e convincentes que a frase é verdadeira. No entanto eu ainda não consigo acreditar nisso. Talvez eu seja teimoso mesmo, como umas e outras ‘teimam’ em me dizer. Tempo, para mim, mede nossas perdas e nossos ganhos, não em balanços financeiros, mas em questões de afetos e conhecimentos. Projeta nossos lançamentos futuros, não os da conta bancária, mas em trocas de amores e aprendizados. Eu acho tão bonito e verdadeiro pensar no tempo assim. Mas pareço pensar sozinho.

Paradoxos. Essa solidão me entristece, mas me traz o melhor da vida. Essa solidão me afasta do mundo real, mas me preenche de realidade. Essa solidão me aprisiona, mas me permite ser livre. Essa solidão me mata, mas me faz viver intensamente cada segundo que passa. Paradoxos? Eu sou assim.

Na semana passada, lá pelo meio de uma quarta-feira de sol, de céu azul e de calor carioca, infernal, eu me senti esgotado. Precisava de um tempo. Cancelei um compromisso, peguei a chave do carro e simplesmente fui até a praia. Quase posso ouvir seu pensamento: “Ah! Se eu pudesse...”. Mas antes que você faça algum juízo de valor, saiba que eu trabalho muito. Não de 9 às 6 como a maioria das pessoas que vendem uma quantidade de tempo por um punhado de dinheiros. Trabalho 24hs por dia. Sim! Para criar eu preciso trabalhar até quando estou dormindo. E tem gente que acha que é uma vida fácil. Experimente?!

Mesmo morando no Rio, não tenho o costume de ir à praia. Óbvio que eu gosto de estar nela, mas me estressa um pouco toda movimentação para chegar lá. De qualquer forma, vou algumas vezes. Talvez por essa falta de costume, me surpreendi com a quantidade de pessoas que encontrei. Em plena quarta à tarde, a praia estava lotada. Ou minha forma de vida não é tão solitária quanto pensei, ou os índices de desemprego são enganosos. Enfim. Aluguei uma barraca de sol e uma cadeira e sentei na beira do mar.

Rio paraíso tentador. Quarta-feira na praia não existe pudor. Eu parecia um adolescente olhando para os corpos seminus que passavam e se esparramavam sob o sol. Lembrei que na adolescência, quando a gente conhecia uma garota logo dava um jeito de encontrá-la na praia. Era o que chamávamos de ‘teste da praia’. Uma vez aprovada, a menina ganhava o direito de um novo encontro. Coisas do Rio. Ri por dentro com aquele chauvinismo adolescente. Sei que era ridículo, mas tenho que assumir que era divertido. Que horror!!! Felizmente os conceitos também evoluem.

De repente uma moça me chamou atenção. Ela era muito gorda e vestia um microbiquíni (mesmo para o padrão de uma modelo) encravado nas entranhas. Escondido. Se eu estivesse acompanhado tenho certeza que ouviria um comentário do tipo ‘que mulher sem noção do ridículo’ e eu concordaria, mas naquele momento eu a achei linda. Achei lindo como ela se aceitava, como gritava para o mundo, silenciosamente, a sua maior virtude. Ser ela mesma. Plena dela mesma. Louca? Sem noção? Não! Linda!

Que dia lindo! Algumas nuvens escorriam pelo céu, como tintas numa pintura abstrata. Fiquei olhando para elas. Eu tenho um habito curioso de tentar descrever em palavras a cena que estou vendo, é um tipo de exercício de escrita mental que faço às vezes. E sou bom nisso. Só que não consegui descrever aquele tipo de nuvens. Sei lá, para mim elas pareciam almas esvoaçantes. E como se descreve uma alma em palavras?

(Consultei o Grande Oráculo a respeito dessas nuvens e aprendi que essas formações se chamam Cirrus, são nuvens muito altas, e existem vários tipos delas. Também aprendi que são um sinal de bom tempo... Uma imagem vale por mil palavras. Eis as tais nuvens.)



As digressões foram se sucedendo diante das nuvens, do céu e do mar. Tive uma avalanche de idéias. Textos, letras, poesias. Até que, em determinado momento, eu não pensei em nada. Foi um instante. Curto. Como uma revelação. Aconteceu. E percebi que era exatamente o que eu precisava, o que eu estava buscando ali. Não fazer nada. Pronto, eu podia ir para casa. Meu trabalho na praia estava terminado. Eu me sentia revigorado. No caminho até o carro ainda pensei que, se fosse parado numa blitz, não passaria no teste do bafômetro. Estava completamente embriagado. De nada. E de mim mesmo.

Já em casa, recebi um telefonema da pessoa com a qual eu tinha desmarcado o compromisso. Eu ia dizer que precisara de um tempo para mim e tinha dado um pulo na praia, mas achei que ela não entenderia. Coloquei então a coisa sob uma outra perspectiva. Falei que me sentira mal e fora visitar um médico. Diagnóstico: Apenas um mal estar causado pela queda de pressão, devido ao calor. Remarcamos o compromisso. Tudo certo. Como ela poderia entender que o médico era a praia e o remédio era não fazer nada? Como? Eu ia parecer um louco irresponsável. Se eu menti foi para não me sentir mais solitário.

Porque escrevi esse texto? Se eu não ganhei nenhum dinheiro, o que eu ganhei com isso? Isso é trabalho? O que eu fiz hoje? Joguei meu tempo fora? O que você ganhou lendo isso? Jogou seu tempo fora? O que eu estou dizendo? Que ir à praia para mim é um trabalho? Eu devo parecer muito louco mesmo. Mas não sou. Eu posso responder a todas essas perguntas. Mas não vou. Simplesmente o convido a apagar tudo que você acabou de ler. Esqueça. Porque eles é que estão certos: Tempo é dinheiro. E quanto mais você tem um menos você tem o outro. É como se fossem dois pratos de uma balança. O que vale mais? Isso varia de pessoa para pessoa. Cada um que ache o seu equilíbrio. Cada um que faça a sua escolha. Cada um que encontre seu caminho. Cada um que o trilhe. E cada um que lide com suas perdas e ganhos. Porque isso, isso se chama vida.


Seiscentos e Sessenta e Seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente ...

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
Mario Quintana (In: Esconderijo do Tempo)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Carnaval

os confetes caíam como chuva brilhante
os clowns fugiam do fim da noite, aflitos
as moças suadas carregavam sorrisos moles
fixados na cara
como as tabuletas de preço nas barraquinhas da feira
o ar estava infestado de obrigatória alegria

menos aqueles olhos negros

não sei dizer o que eu senti
não foi um momento mágico
nem uma paixão repentina
e logo os perdi de vista

havia chegado a hora
o dia já vinha raiando
e eu tinha que ir embora

da porta vi foliões se afastando
mas não procurei olhos negros

Lá fora encontrei o sol
começando a brilhar...


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Luz e Sombras



Deus criou a vida... A vida criou o homem... O homem criou a palavra... A palavra criou Deus...

Eu também poderia afirmar que a palavra nasceu como a vida. Que da mesma forma que os átomos se agruparam para formar moléculas de DNA, os sons se juntaram para formar as palavras...

Sofismas à parte. Não pretendo discutir aqui o fenômeno da criação. Não tenho dados de pesquisa nem conhecimento suficiente para isso. Só sei do que me interessa. Trabalho com a minha imaginação, o que convenho, suplanta qualquer realidade. Eu sempre opto pela visão poética. E aí fica mais fácil. A vida veio do mar. A palavra veio da música.

Imagino... Nossos ancestrais, ainda em suas cavernas, emitindo seus primeiros sons guturais numa tentativa de se comunicar. E quando essa ponte se completa, os rudimentos das palavras estabelecem uma comunicação efetiva, nascendo assim, a percepção do outro. Real. Imagino... O nosso ‘eu’ primitivo, maravilhado, abandonando sua caverna interior para se aventurar nessa extraordinária descoberta. O outro como um igual. A descoberta de um novo mundo. O seu próprio. Imagino... Puxada pelos cavalos do tempo, a carruagem da evolução seguindo sua marcha, e as palavras, que flutuavam suspensas no ar, caindo sobre as pedras. Literalmente. O surgimento da escrita. Esse evento é como um raio partindo o mundo em dois. Agora o mundo exterior pode ser interiorizado e, como contraponto, o sombrio mundo interior ganha a luz do dia. Como água e óleo, estes dois mundos se chocam, colidem, mas não se misturam. A guerra dos mundos. Em cada um de nós. Agora seres eternizados nas nossas próprias palavras.

Não sei para onde essas idéias querem me levar, mas as sigo, obediente. Meu pensamento é veloz e não consigo acompanhá-lo. Ando meio esquisito mesmo. As idéias já vão longe. Eu fico aqui. Perdido. Tenho lido muito e muitos. Agora penso em todos que escrevem. O que me assusta um tanto. Tantos. É. Porque para escrever de verdade é preciso mergulhar profundo. É preciso fôlego e coragem. É preciso um quê de pureza. O susto é porque fico na dúvida se vale a pena tanto esforço.

Tento me colocar do outro lado – sempre quero ver os dois lados – e gosto disso. Ver o todo me dá a perspectiva de percebê-lo à margem. De fora sempre se vê melhor, de longe se vê mais largo. E eu me vejo lá longe. Eu, um pequeno leitor. Aventureiro. Desbravador. Descobrindo os livros, com suas histórias incríveis. Tão minhas. Conhecendo escritores com seus pensamentos excitantes, intrinsecamente ligados aos meus. Que os pensamentos são compartilhados. De um pensamento de alguém surge um novo em você. Que compartilhar é inerente à criação. E em seguida me vejo um pequeno escritor. Criando. Destrono Deus. Ah! Descanse companheiro. Que esse lugar agora é meu.

Mas em mim, criar, em vez de erguer uma obra, paradoxalmente a desmancha. Criar é a minha ruína. O espanto de toda luz que emanou do primeiro livro que abri me assombra. As palavras são minha luz. As palavras me fazem Deus. E Deus vive nas sombras. Sou inundado por uma onda de compaixão ao pensar em todos que escrevem, autocondenados a viver nas trevas. Não sei se é uma esperança, a compaixão nos faz piedosos. Esperança, compaixão e piedade numa só frase? Estou completamente perdido. Acho que é hora de parar. Espero que você consiga enxergar alguma coisa porque eu não vejo mais nada. Está escuro por aqui.

Sim! Para criar a luz é preciso se apagar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Não me Chame de Poeta

Desde sempre me soube um poeta, antes mesmo de saber que eu poderia escrever. Curiosamente nunca tive a pretensão de me dizer um poeta. Talvez porque seja livre e rebelde o suficiente para não me submeter à forma e ao estilo. Talvez porque a palavra ‘poeta’ carregue uma certa pompa com a qual não me identifico. Uma carga que eu não sustento. O meu relacionamento com a língua está no gosto, no prazer, no gosto pelo prazer. Em todos sentidos. Se me sei um poeta é porque minha alma é de poeta. E sobre isso não tive escolha. Fui reconhecido pela legião de almas que me circundam quando começo a escrever. E tenho o maior reconhecimento que um poeta pode almejar. Este vem das palavras selvagens, brutalmente domesticadas pelas minhas mãos trêmulas.




sábado, 31 de outubro de 2009

Carruagens


acordei com a sinfonia #1 de Mahler

- se é que é possível alguém despertar com Mahler
que inevitavelmente nos leva
para o seu mundo de sonhos -

e fui cavalgar pelos campos
de mil setecentos e pouco...

sobre velozes cavalos
o chicote zunia no ar

folhas secas que deixavam
um rastro de redemoinhos
naquela estrada que ia
do meu castelo ao mar

eu ia caçar teu sorriso
eu ia encontrar meu amor

de espessas nuvens cinzas
a chuva caiu sonolenta
e trouxe a lembrança de versos

que a chuva nos faz sonolentos

acordei com teu retrato
na contracapa de um livro

talvez eu comece a acreditar
que existam vidas passadas
reencarnações, essas coisas

ah! Cecília
tu que escreves
como quem conduz carruagens






quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Baile das Sombras



era uma criança inocente
rabiscando o papel
no quarto mal iluminado

ardia um toco de vela
a canção

ao seu redor
uma legião de sombras
dançando e observando

num canto escuro
um velho
com um sorriso amarelo

era uma criança inocente...

parecia mais o diabo

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Parábola Blues




a letra mais triste que eu já escrevi...


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Parábola Blues

Tento disfarçar o som da minha voz
Não quero que você perceba o quanto eu
Fico triste longe de você
Longe de saber o que aconteceu

Como foi seu dia? Como vai você?
As perguntas frias e as respostas sem porquê
É que eu não sei como esquecer
O caminho do seu coração

E alguém me disse: “deixe o tempo passar,
Não existe dor no mundo que ele não saiba curar”
Só não me disseram o que eu devo fazer
Enquanto espero o tempo passando longe de você

Flores pela casa, a casa agradece
Meu esforço inútil pra que a alegria regresse
Calendários marcam minha dor
Se eu não me engano o tempo me enganou

Por isso eu disfarço e sei como fingir
É que eu não quero que você perceba que eu já percebi
Que a minha tristeza é a sua também
Nem o tempo pode apagar o que ainda vem...

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se quiser ouvir com a música, é a faixa 5 do novo CD
clique aqui


love you, son,
always...

sábado, 17 de outubro de 2009

Perto do Coração Selvagem

O trabalho com minha banda me requisitou muito nesta semana . Além dos ensaios e reuniões, ainda tive que colocar o novo site no ar (que trabalheira que deu), o que me deixou totalmente sem tempo para escrever.

Assim, para não passar em branco, decidi 'postar' uma letra antiga que permanece inédita até os dias de hoje. Eu a escrevi em 1988. Na época, eu tinha uma banda chamada Buana 4. Nós chegamos a gravar a música, mas não lembro porque não a colocamos no disco. Eu nem tenho mais essa gravação... Enfim.

Há pouco tempo encontrei o Maurício Barros (Barão Vermelho), que era meu parceiro no Buana, e ele me disse que vai gravar essa música no disco solo dele que está em fase de produção. Legal. De volta, para o futuro.

Ah! Por incrível que pareça, eu não tirei o título do livro da Clarice. Eu nem o conhecia e só depois soube que já existia um livro homônimo. Curiosamente, nunca o li. Foi uma dessas misteriosas coincidências.

Bem, segue a letra...

perto do coração selvagem

se você já chorou por alguém
que nem ao menos conhece
se já jurou por amor
quem sabe um dia acontece
de você me achar perdido
entre as grades de um hospício
pedindo perdão a mim mesmo
e achando um desperdício

se alguém já te acusou
de mostrar os seus sentimentos
ou se você já notou
que existe um sinal nos tempos
você poderá me achar
escrevendo algumas besteiras
sentado em algum bar
bebendo entre amigos

se alguém já cortou suas asas
quando você quis voar
você poderá me achar
tentando a mesma viagem
E quando você se perder
entre vozes e imagens
você vai achar abrigo
perto do coração selvagem

se ninguém nunca entendeu
o lodo da tua alma
se você já se vendeu
e todos bateram palmas
eu sei que você já me achou
é só olhar pro seu lado
eu sei que você me entendeu
mesmo que eu esteja errado.