Os Dançarinos

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Desesperança

debaixo do chapéu, cabelos brancos
feito os pombos que ciscam o chão
o pensamento parte em revoada

o velho cruza a rua de mãos dadas
com a sua solidão
olhos fixos que não dizem nada

pra onde vai o tempo?
pra onde ele leva o que se perdeu?

uma mulher ajeita o vestido
sujo como o pano que esfrega o chão
ela carrega no rosto um sorriso gasto
que cabe no tubo da pasta de hortelã

ela evita o coração
mas o espelho não evita o amanhã

o grito do tempo ecoa
ele diz esperança...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Farewell




não sou a promessa de uma vida a dois

ora! não acredito em futuro

o futuro foge do agora
e não se existe nesse estado
quando passar o presente
o tempo será passado

ah! e se fui feito de lama
você é só minha costela

não sou o feliz passarinho
nunca soube fazer ninho

mas aprendi a voar ligeiro

viu? você nem me viu
quando pousei na janela

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Carnaval

os confetes caíam como chuva brilhante
os clowns fugiam do fim da noite, aflitos
as moças suadas carregavam sorrisos moles
fixados na cara
como as tabuletas de preço nas barraquinhas da feira
o ar estava infestado de obrigatória alegria

menos aqueles olhos negros

não sei dizer o que eu senti
não foi um momento mágico
nem uma paixão repentina
e logo os perdi de vista

havia chegado a hora
o dia já vinha raiando
e eu tinha que ir embora

da porta vi foliões se afastando
mas não procurei olhos-negros

Lá fora encontrei o sol
começando a brilhar...

sábado, 31 de outubro de 2009

Carruagens


acordei com a sinfonia #1 de Mahler

- se é que é possível alguém despertar com Mahler
que inevitavelmente nos leva
para o seu mundo de sonhos -

e fui cavalgar pelos campos
de mil setecentos e pouco...

sobre velozes cavalos
o chicote zunia no ar

folhas secas que deixavam
um rastro de redemoinhos
naquela estrada que ia
do meu castelo ao mar

eu ia caçar teu sorriso
eu ia encontrar meu amor

de espessas nuvens cinzas
a chuva caiu sonolenta
e trouxe a lembrança de versos

que a chuva nos faz sonolentos

acordei com teu retrato
na contracapa de um livro

talvez eu comece a acreditar
que existam vidas passadas
reencarnações, essas coisas

ah! Cecília
tu que escreves
como quem conduz carruagens






quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Baile das Sombras



era uma criança inocente
rabiscando o papel
no quarto mal iluminado

ardia um toco de vela
a canção

ao seu redor
uma legião de sombras
dançando e observando

num canto escuro
um velho
com um sorriso amarelo

era uma criança inocente...

parecia mais o diabo

domingo, 4 de outubro de 2009

Inspiração

Ele só queria encontrar uma frase.

Parou diante do mar e ficou olhando... Nada!
Subiu numa árvore e olhou a paisagem, mas só conseguiu um arranhão.
Foi andando... olhando as nuvens... E quase caiu num buraco.

Parou em frente à placa de trânsito. Vermelha.
Onde se lia a palavra

"Pare".
Logo abaixo ele escreveu:

"A inspiração não está no que se olha, mas no que se vê".

E foi embora,
que cara estranho!

Mas deixou a frase lá.



quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Nosso Encontro Imaginário

Eu a vi andando na rua... parecia estar chorando.

Não pude ver seu rosto, pois seu corpo estava curvado,
como se carregasse nos ombros o peso de suas mil vidas.

Quando finalmente passou por mim reparei que ela deixava um rastro
cor-de-rosa.
Seria estranho se não fosse mágico.

Eu chamei seu nome, mas seu nome era uma letra.
E letras precisam de letras para encontrar seus sentidos.

O vento balançou levemente seus cabelos,
mas ela não olhou para trás.

Nunca.


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Criação




E o matuto?
Dando com o pedaço de pau
nos restos daquela fogueira...
Maluco?
Que nada!
Parecia Deus criando as estrelas.


sábado, 12 de setembro de 2009

Poema de Vento




A ventania, que mal educada,
entrou sem pedir licença.

Foi logo derrubando coisas,
tirando tudo do seu lugar...

E mexeu comigo por dentro

Enquanto eu olhava o vento
jogando os galhos pra lá e pra cá.

Era bonito de ver, mas também dava um certo medo
(não me sinto confortável no meio da ventania).

Admiração e temor.
Não é o que se sente diante dos superiores?

Então deve ser isso:
Eu também sou vento,
mas sou fraco.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Papéis Antigos


Eu já confessei minha compulsão em escrever e o hábito de jogar fora as coisas que escrevo. Mas às vezes algumas coisas conseguem escapar.

Há alguns meses atrás eu achei um pedaço de papel na minha gaveta onde se lia a frase 'Nas coisas pequenas repousam os amores'. Devia ser bem antigo pois não me lembrava de ter escrito aquilo, talvez até tenha visto ou lido em algum lugar, não tenho certeza, mas como não tinha nenhuma referência acredito que era meu mesmo.

Nesse dia eu estava com muita raiva de mim mesmo. Cansado de me sabotar. Puto. E essa simples frase acabou deflagrando uma letra chamada Outro Eu. (se interessar a música pode ser ouvida no CD O Fim da Infância que gravei com a Carmem e o Tantra)

Mas vou aproveitar para salvar aqui dois papéis que acabei de encontrar na bagunça da minha mesa. Esses eu lembro bem de ter escrito.

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ecos paralelos

os iguais jamais se tocam.
e mesmo o Tempo, tirano maior do universo,
se dobra diante de tal assombro...
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um momento

curioso é o momento
um mero ponto na linha do tempo
que apesar de estático,
rima com movimento.
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Vou deixar isso por aqui. Quem sabe um dia tenha alguma serventia.
Pronto! Os papéis podem ir pro lixo. Em paz.